Opinião: A epidemia das trends de Inteligência Artificial

Será que já atingimos o limite do uso da ferramenta por artistas e pessoas comuns?
Até quando negligenciaremos o uso exacerbado da Inteligência Artificial na criação de imagens e vídeos em campanhas publicitárias, no meio artístico e até mesmo em trends do momento nas redes sociais?
Esse questionamento surge a partir de três problemáticas (sabe-se que existem outras), mas neste artigo abordaremos uma tríade de situações em que o uso da IA ultrapassa o limite da ética, da moral e até do bom gosto, diga-se de passagem.
Sabe-se que a IA tem sido "uma mão na roda" para muitos trabalhadores de diversos ramos, principalmente para realizar tarefas repetitivas, como resumo de reuniões, correção de textos simples, atendimento a clientes, entre outros. Neste sentido, a ferramenta otimiza o tempo destes profissionais para que eles possam se dedicar a tarefas mais complexas que demandam, de fato, a inteligência humana.
Mas como nem todo ser humano possui senso (e digo senso como um todo: senso comum, senso crítico, senso moral), tudo está se esvaindo. Cada vez mais, as pessoas estão trocando o real pela superficialidade do artificial, sem pensar nas consequências dessa ação.
O primeiro ponto que gostaria de abordar neste artigo trata-se do esvaziamento cultural e do desemprego tecnológico. No domingo, dia 6, o grupo norte-americano Black Eyed Peas se apresentou no festival Rock in Rio como uma das atrações principais do evento. O que o público não esperava era que, durante a participação especial do produtor brasileiro Papatinho, eles anunciariam o lançamento de uma nova música, "We live up in here", com um clipe feito inteiramente por IA.
A reação de grande parte do público foi de decepção, principalmente por se deparar com imagens e cenários altamente estereotipados que em nada se assemelham à realidade vivida no Rio de Janeiro. A apresentação do clipe, que deveria ser um trabalho sério e feito para agradar aos fãs, acabou se tornando um meme nas redes sociais. O grupo perdeu uma grande oportunidade de fazer uma imersão no Rio de Janeiro, conhecer nossa cultura e apresentá-la para o mundo de uma forma genuína e única.
Outro grande problema a ser destacado neste caso é a quantidade de empregos que poderiam ter sido gerados por meio da criação deste videoclipe: diretores, produtores, atores e atrizes, operadores de câmera, maquiadores, figurinistas, entre outros. Esses profissionais perderam a oportunidade de trabalhar ao lado de um grupo de renome como o Black Eyed Peas por serem substituídos por uma ferramenta que sequer entregou um clipe digno para as pessoas presentes no maior festival de música do Brasil. Estima-se que tenhamos perdido um investimento superior a R$ 200 mil, o que significa menos dinheiro na mão de profissionais capacitados e maior precarização no mercado.
Saindo do campo artístico e indo ao encontro do que acontece no nosso dia a dia no mundo virtual, as trends com Inteligência Artificial estão ganhando cada vez mais espaço. Isso ocorre, talvez, por grande influência da própria Meta e do Google, que divulgam amplamente opções de uso das ferramentas de IA para criar imagens com modelos de prompts virais. Mas qual é o real sentido dessas trends?
Entendo que, para os desenvolvedores destas ferramentas, seja altamente conveniente que as pessoas consumam este tipo de serviço, afinal, é isso que mantém essas tecnologias vivas. O que na verdade não consigo entender é como as pessoas (que possuem inteligência humana) não conseguiram discernir, até o momento, o quanto o uso dessas ferramentas é prejudicial não só para a vida delas, mas também para o planeta. E, perdoem-me a intromissão, além de ser extremamente cafona.
Sim, cafona. Exatamente isso que acabei de falar. Dando como exemplo a última trend do momento, “Como eu seria nos anos 80”, as imagens geradas retratam tudo, menos como essas pessoas realmente são. É claro que, em algumas características, a pessoa fica semelhante; contudo, a ferramenta de IA não busca retratar a realidade. Se fosse assim, sejamos francos, ninguém postaria a imagem gerada. A Inteligência Artificial possui um enorme banco de imagens de diversos corpos e rostos, e junta tudo isso para que a imagem gerada se torne mais “palatável”, a ponto de o usuário querer postá-la nas redes sociais.
Essa epidemia das trends, segundo psicólogos e especialistas em saúde mental, está alterando profundamente a autopercepção, a autoestima e a saúde mental dos usuários, conforme pesquisa divulgada pela GloboNews. Mas essa epidemia não afeta só o psicológico das pessoas que fantasiam ser como naquelas imagens: ela vai além disso.
E esse "além" é retratado no nosso terceiro e último ponto deste artigo: a crise climática que será acelerada pelo uso de IA de maneira desenfreada.
Você já parou para pensar na quantidade de água que é utilizada para manter um data center ativo? Quanta água você gasta para entrar em uma trend ou para criar um videoclipe que vai virar meme no maior festival do Brasil?
Deixe-me fazer outras perguntas antes: como é a sua rotina de limpeza básica em casa? Você costuma se preocupar com quanta água é gasta enquanto lava a louça, toma banho ou escova os dentes? Bem, imagino que sim. Inclusive, aprendemos desde cedo que devemos, sempre que possível, economizar os nossos recursos hídricos.
A seguir, apresento uma lista com o gasto aproximado de água utilizado em tarefas com Inteligência Artificial:
Textos curtos de até 100 palavras: 500 ml
Textos mais complexos de mais de 100 palavras: 1,4 litro
Imagens: 1 a 5 litros
Vídeos curtos: 2 a 12 litros
Vídeos complexos (como o clipe do Black Eyed Peas): Milhares de litros
Observação: No ano de 2023, quando a Inteligência Artificial começou a ganhar mais evidência nas redes, os data centers do Google gastaram 24 bilhões de litros de água. Imagine se somarmos o uso de água por todas as ferramentas de IA existentes hoje.
Você já pensou na última vez em que te deram algo “de graça”? Será que as ferramentas de IA são realmente tão benéficas assim ao oferecerem essas soluções de forma gratuita?
Sim, são muitos questionamentos, mas o propósito deste texto é este: fazer você recuperar o senso e entender que uma simples brincadeira já está trazendo danos enormes e irreversíveis para as nossas vidas, tanto no espectro pessoal quanto no coletivo.
Continuar usando a Inteligência Artificial para atividades fúteis é uma forma de validar que plataformas como OpenAI, Google e Meta, entre outras, continuem a explorar nossos recursos hídricos. E vou além: é compactuar com a precarização e a extinção de postos de trabalho humanos.
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